quarta-feira, 14 de março de 2012


Discussão sempre em pauta: quantas vezes na vida precisamos repetir uma coisa várias vezes para aprender melhor?






APROVAR OU CONTINUAR NA MESMA SÉRIE?
Alguns aspectos que podem auxiliar nesta difícil decisão

Muitas vezes nos perguntamos sobre a necessidade de manter uma criança na mesma série. E nesse momento que muitos professores, coordenadores e profissionais envolvidos com o tratamento de crianças com dificuldades de aprendizagem estão refletindo sobre essa possibilidade.
Através dos anos pude notar que, invariavelmente, essa questão é levantada e discutida entre aqueles que são responsáveis por essas crianças e jovens que apresentam algum tipo de desreguralidade em seu processo de aprender.
Muitas escolas recorrem ao Psicopedagogo, questionando-o sobre essa possibilidade, o que me faz refletir sobre os prós e os contras da reprovação para esses alunos.
Levanto a seguir alguns aspectos que considero relevantes para essa tomada de decisão, baseados em minha experiência.
Há três grandes áreas, vamos assim chamar, que estão envolvidas no processo de aprendizagem: a aprendizagem escolar propriamente dita, os relacionamentos e a afetividade permeada nela.
A aprendizagem escolar propriamente dita diz respeito aos conteúdos escolares que a criança  ou jovem em questão adquiriu ou deveria ter adquirido e sobre eles podemos questionar: quais os conhecimento da série atual são essenciais? Quais deles são prérequeisitos para a série posterior? E ainda, quais o aprendiz conseguiu adquirir durante o ano que passou?  O que deveria ter aprendido e não aprendeu? O que, em cada série (no caso a que está cursando atualmente e a posterior), é determinante para que o aluno permaneça ou vá para nela? E principalmente: ficando na série em que está ou indo para a próxima etapa, quais medidas a escola fará para que haja aprendizagem na decisão tomada?

Aprendizagem escolar
Questão
Reflexão
Quais os conhecimentos da série atual são essenciais?
Aqui é importante listar as habilidades e competências essencias da série em questão.
Quais deles são prérequeisitos para a série posterior?
E desses conhecimentos que são essenciais, quais são necessários dominar para dar continuidade a aprendizagem escolar.
O que o aluno em questão aprendeu durante o ano?
Refletir sobre como o aluno entrou na série e como está neste momento, tendo consciência dos avanços, esforços e dificuldades determinam uma melhor decisão. Para tanto a comparação dos materiais produzidos pelo aluno e as observações dos professores são instrumentos eficazes.
O que deveria ter aprendido e não aprendeu?
Depois de ter clareza do que o aluno aprendeu, é necessário listar aquilo que deveria ter aprendido mas não aprendeu. Ao fazer essa reflexão é importante correlacionar com os conteúdos que são realmente importantes, já levantados no primeiro tópico.
O que, em cada série, é determinante para que o aluno vá ou permaneça nela?
Levantando a hipótese de permanecer na mesma série, o que a mesma oferecerá de aprendizagem sigfnificativa para o aluno e o mesmo se o aluno progredir para a etapa posterior: o que nela acrescentará ao aprendizado escolar desse sujeito.
Ficando na série em que está ou indo para a próxima etapa, quais as medidas que a escola tomará para que o aluno continue aprendendo a partir da decisão tomada?

Nesta questão, a escola, juntamente com pais e profissionais precisam traçar objetivos para o próximo ano, seja ele na série que for. Decisões como continuar com atendimentos, criar estratégias de inclusão, flexibilizar o curriculo e orientar professores são algumas medidas passíveis de serem tomadas.


Ao avaliarmos nossos alunos temos o ímpeto de focar na aprendizagem escolar e em seus conteúdos, mas os relacionamentos estabelecidos em sala de aula como laços de amizade, rede de relações e afinidades e ainda como o grupo vê esse sujeito e suas dificuldades são determinantes na decisão da reprovacão. Se um aluno é bem acolhido, o grupo tende a judá-lo, compreende suas dificuldades e o inclui no círculo social das relações, a reprovaçao pode não ser indicada. Pensando na reprovação deve-se projetar as relações que poderão se estabelecer, hipotetizando como o novo grupo, mais jovem, vai receber o novo aluno e se não há discrepâncias físicas ou de interesses sociais que poderão gerar conflito.

Relacionamentos
Questão
Reflexão
Como são os relacionamentos estabelecidos na turma atual?
Uma observaçao mais atenta do professor, principalmente em momentos mais livres, dará uma noção mais realista de como as crianças se relacionam. A presença do adulto inibi muitas das reações que são expressas sem a presença dele.
Como a turma vê as dificuldades do colega? Quais as reações mais frequentes?
Na sala de aula é fácil perceber como o grupo atual entende a dificuldade do colega. A mediação do professor diante de comentários ajudam a definir essa visão que o grupo formou.
Acontecendo a reprovação como o novo grupo irá acolher o sujeito com suas dificuldades? Quais as diferenças e/ou afinidades possíveis com o novo grupo?
Observar as caracteristicas do grupo no qual o aluno fará parte, conversar com a professora atual desse grupo, verificar a presença de outros alunos com dificuldade e traçar o perfil desse grupo, reunindo assim fatores que ajudem a determinar como será as relações em um novo grupo.
E mais uma vez: o que a escola fará para acolher e incluir no grupo esse sujeito, independente do grupo no qual estará?
Volto a repetir a necessidade de projetar ações que ajudem a incluir o aluno em questão no grupo em que está inserido uma vez que a aprendizagem só acontece através das relações com outros individuos e com o grupo. 

O ser humano é afetivo por excelência. Sempre tocado por sentimentos e emoções e não é diferente na escola e nas relações de aprendizagem. Ser “reprovado” é um peso muito grande para uma criança e uma família. A maneira como a escola trata o assunto, encaminha as reuniões com os pais, as rodas de conversa com a turma podem atenuar o sentimento de fracasso. Costumo me referir a reprovação como continuar fazendo a mesma série, porque cada criança tem um ritmo e necessidades diferentes e como educadores conscientes que somos, saberemos transmitir aos pais e crianças essas diferenças e tocá-los a ponto de entender a necessidade de fazer mais uma vez a mesma série.

Afetividade
Questão
Reflexão
Como foi encaminhado durante o ano a comunicação com os pais sobre as dificuldades do filho?
Quando uma reprovaçao acontece, a criança dá sinais de suas dificuldades desde muito cedo, até mesmo na série anterior. É dever da escola comunicar claramente essas dificuldades, além de discutí-las e pedir ajuda a um profissional (como o psicologo ou o psicopedagogo), se achar necessário.
De que forma e quando é o melhor momento para comunicar a reprovaçao ou a continuidade mesmo com as dificuldades evidentes?
Durante as conversas durante o ano é preciso deixar claro as dificuldades apresentadas. Muitas vezes não o fazemos e desta forma a reprovaçao ao final do ano se torna inesperada, um choque que vem carregado de sentimentos ruins como o fracasso. Demonstrar as dificuldades em reuniões periódicas, em apontamentos nos cadernos e atividades, na agenda entre outros meios de comunicar, ajudam a ir dosando a notícia que poderá ser inevitável.
E a escola quando fazê-la, deve manter-se firme nesta decisão.
A criança em questão e seu grupo também devem ser comunicados e ouvidos sobre o assunto?
Muitas vezes nos esquecemos da parte mais importante: a criança. Conversar com ela sobre essa decisão, sobre os motivos envolvidos e necessidades vistas. Além de abrir para o grupo, se assim a criança permitir, discutindo sentimentos e percepções, simplifica e suavisa esse momento.


Tentei neste texto orientar, a partir de minha experiência como professora e psicopedagoga, a difícil decisão de uma criança ou jovem continuar fazendo a mesma série. E o encerro perguntando mais um pouco: quem nunca teve que repetir algo para aprender? Um violinista passa horas em um único acorde, uma dançarina fica meses ou até anos ensaindo uma peça, o novo motorista demora um bom tempo para se tornar um bom motorista, e muitos outros exemplos se acrescentariam aqui.

Que bom que na vida temos a oportunidade de fazer de novo!

Referências:

CHAMAT, Leila Sara José. Relações Vinculares e Aprendizagem – Um Enfoque Psicopedagógico. São Paulo: Vetor, 1997.
GRINBERG, Leon, et al. Introdução às ideias de Bion. Rio de Janeiro: Imago editora, 1973.
SCOZ, Beatriz. Psicopedagogia e Realidade escolar- O problema escolar e de aprendizagem. Petrópolis: Editora Vozes, 1999. 

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