Discussão sempre em pauta: quantas vezes na vida precisamos repetir uma coisa várias vezes para aprender melhor?
APROVAR OU CONTINUAR
NA MESMA SÉRIE?
Alguns aspectos que
podem auxiliar nesta difícil decisão
Muitas vezes
nos perguntamos sobre a necessidade de manter uma criança na mesma série. E
nesse momento que muitos professores, coordenadores e profissionais envolvidos
com o tratamento de crianças com dificuldades de aprendizagem estão refletindo sobre
essa possibilidade.
Através dos
anos pude notar que, invariavelmente, essa questão é levantada e discutida
entre aqueles que são responsáveis por essas crianças e jovens que apresentam
algum tipo de desreguralidade em seu processo de aprender.
Muitas escolas
recorrem ao Psicopedagogo, questionando-o sobre essa possibilidade, o que me
faz refletir sobre os prós e os contras da reprovação para esses alunos.
Levanto a seguir
alguns aspectos que considero relevantes para essa tomada de decisão, baseados
em minha experiência.
Há três
grandes áreas, vamos assim chamar, que estão envolvidas no processo de aprendizagem:
a aprendizagem escolar propriamente dita, os relacionamentos e a afetividade permeada
nela.
A aprendizagem
escolar propriamente dita diz respeito aos conteúdos escolares que a
criança ou jovem em questão adquiriu ou
deveria ter adquirido e sobre eles podemos questionar: quais os conhecimento da
série atual são essenciais? Quais deles são prérequeisitos para a série
posterior? E ainda, quais o aprendiz conseguiu adquirir durante o ano que
passou? O que deveria ter aprendido e
não aprendeu? O que, em cada série (no caso a que está cursando atualmente e a
posterior), é determinante para que o aluno permaneça ou vá para nela? E principalmente:
ficando na série em que está ou indo para a próxima etapa, quais medidas a
escola fará para que haja aprendizagem na decisão tomada?
Aprendizagem
escolar
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Questão
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Reflexão
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Quais os conhecimentos da série
atual são essenciais?
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Aqui é importante listar as
habilidades e competências essencias da série em questão.
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Quais deles são prérequeisitos
para a série posterior?
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E desses conhecimentos que são
essenciais, quais são necessários dominar para dar continuidade a
aprendizagem escolar.
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O que o aluno em questão
aprendeu durante o ano?
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Refletir sobre como o aluno
entrou na série e como está neste momento, tendo consciência dos avanços,
esforços e dificuldades determinam uma melhor decisão. Para tanto a
comparação dos materiais produzidos pelo aluno e as observações dos
professores são instrumentos eficazes.
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O que deveria ter aprendido e
não aprendeu?
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Depois de ter clareza do que o
aluno aprendeu, é necessário listar aquilo que deveria ter aprendido mas não
aprendeu. Ao fazer essa reflexão é importante correlacionar com os conteúdos
que são realmente importantes, já levantados no primeiro tópico.
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O que, em cada série, é
determinante para que o aluno vá ou permaneça nela?
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Levantando a hipótese de
permanecer na mesma série, o que a mesma oferecerá de aprendizagem
sigfnificativa para o aluno e o mesmo se o aluno progredir para a etapa
posterior: o que nela acrescentará ao aprendizado escolar desse sujeito.
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Ficando na
série em que está ou indo para a próxima etapa, quais as medidas que a escola
tomará para que o aluno continue aprendendo a partir da decisão tomada?
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Nesta questão, a escola,
juntamente com pais e profissionais precisam traçar objetivos para o próximo
ano, seja ele na série que for. Decisões como continuar com atendimentos,
criar estratégias de inclusão, flexibilizar o curriculo e orientar professores
são algumas medidas passíveis de serem tomadas.
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Ao avaliarmos
nossos alunos temos o ímpeto de focar na aprendizagem escolar e em seus
conteúdos, mas os relacionamentos estabelecidos em sala de aula como laços de
amizade, rede de relações e afinidades e ainda como o grupo vê esse sujeito e
suas dificuldades são determinantes na decisão da reprovacão. Se um aluno é bem
acolhido, o grupo tende a judá-lo, compreende suas dificuldades e o inclui no
círculo social das relações, a reprovaçao pode não ser indicada. Pensando na
reprovação deve-se projetar as relações que poderão se estabelecer,
hipotetizando como o novo grupo, mais jovem, vai receber o novo aluno e se não
há discrepâncias físicas ou de interesses sociais que poderão gerar conflito.
Relacionamentos
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Questão
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Reflexão
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Como são os relacionamentos
estabelecidos na turma atual?
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Uma observaçao mais atenta do
professor, principalmente em momentos mais livres, dará uma noção mais
realista de como as crianças se relacionam. A presença do adulto inibi muitas
das reações que são expressas sem a presença dele.
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Como a turma vê as dificuldades
do colega? Quais as reações mais frequentes?
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Na sala de aula é fácil
perceber como o grupo atual entende a dificuldade do colega. A mediação do
professor diante de comentários ajudam a definir essa visão que o grupo
formou.
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Acontecendo a reprovação como o
novo grupo irá acolher o sujeito com suas dificuldades? Quais as diferenças
e/ou afinidades possíveis com o novo grupo?
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Observar as caracteristicas do
grupo no qual o aluno fará parte, conversar com a professora atual desse
grupo, verificar a presença de outros alunos com dificuldade e traçar o
perfil desse grupo, reunindo assim fatores que ajudem a determinar como será
as relações em um novo grupo.
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E mais uma vez: o que a escola
fará para acolher e incluir no grupo esse sujeito, independente do grupo no
qual estará?
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Volto a repetir a necessidade
de projetar ações que ajudem a incluir o aluno em questão no grupo em que
está inserido uma vez que a aprendizagem só acontece através das relações com
outros individuos e com o grupo.
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O ser humano é
afetivo por excelência. Sempre tocado por sentimentos e emoções e não é
diferente na escola e nas relações de aprendizagem. Ser “reprovado” é um peso
muito grande para uma criança e uma família. A maneira como a escola trata o
assunto, encaminha as reuniões com os pais, as rodas de conversa com a turma
podem atenuar o sentimento de fracasso. Costumo me referir a reprovação como continuar fazendo a mesma série, porque
cada criança tem um ritmo e necessidades diferentes e como educadores
conscientes que somos, saberemos transmitir aos pais e crianças essas
diferenças e tocá-los a ponto de entender a necessidade de fazer mais uma vez a
mesma série.
Afetividade
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Questão
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Reflexão
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Como foi encaminhado durante o
ano a comunicação com os pais sobre as dificuldades do filho?
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Quando uma reprovaçao acontece,
a criança dá sinais de suas dificuldades desde muito cedo, até mesmo na série
anterior. É dever da escola comunicar claramente essas dificuldades, além de
discutí-las e pedir ajuda a um profissional (como o psicologo ou o
psicopedagogo), se achar necessário.
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De que forma e quando é o
melhor momento para comunicar a reprovaçao ou a continuidade mesmo com as
dificuldades evidentes?
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Durante as conversas durante o
ano é preciso deixar claro as dificuldades apresentadas. Muitas vezes não o
fazemos e desta forma a reprovaçao ao final do ano se torna inesperada, um
choque que vem carregado de sentimentos ruins como o fracasso. Demonstrar as
dificuldades em reuniões periódicas, em apontamentos nos cadernos e
atividades, na agenda entre outros meios de comunicar, ajudam a ir dosando a
notícia que poderá ser inevitável.
E a escola quando fazê-la, deve
manter-se firme nesta decisão.
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A criança em questão e seu
grupo também devem ser comunicados e ouvidos sobre o assunto?
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Muitas vezes nos esquecemos da
parte mais importante: a criança. Conversar com ela sobre essa decisão, sobre
os motivos envolvidos e necessidades vistas. Além de abrir para o grupo, se
assim a criança permitir, discutindo sentimentos e percepções, simplifica e
suavisa esse momento.
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Tentei neste texto
orientar, a partir de minha experiência como professora e psicopedagoga, a
difícil decisão de uma criança ou jovem continuar fazendo a mesma série. E o
encerro perguntando mais um pouco: quem nunca teve que repetir algo para
aprender? Um violinista passa horas em um único acorde, uma dançarina fica
meses ou até anos ensaindo uma peça, o novo motorista demora um bom tempo para
se tornar um bom motorista, e muitos outros exemplos se acrescentariam aqui.
Que bom que na
vida temos a oportunidade de fazer de novo!
Referências:
CHAMAT, Leila
Sara José. Relações Vinculares e Aprendizagem – Um Enfoque Psicopedagógico. São
Paulo: Vetor, 1997.
GRINBERG,
Leon, et al. Introdução às ideias de Bion. Rio de Janeiro: Imago editora, 1973.
SCOZ, Beatriz.
Psicopedagogia e Realidade escolar- O problema escolar e de aprendizagem. Petrópolis:
Editora Vozes, 1999.