quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Intervenção Psicopedagógica- A tarefa

            Quando falamos "tarefa" na Clínica Psicopedagógica, dizemos de toda atividade em que o paciente se embrenhe e produza como forma de aprendizado. Planejar e executar e as nuances mínimas, porém importantes desse movimento, são mobilizadoras do sentimento de capacidade do sujeito aprendente.
           Quando um paciente chega a clínica, após a avaliação diagnóstica e a produção da caixa de trabalho, costumo propor uma busca por aquilo que o sujeito gosta e o que poderia ser feito a partir disso.
           R. tem apenas 6 anos, de acordo com ela 7, pois daqui a 2 dias faz aniversário. Veio a Clínica por dificuldades em se alfabetizar e também por sentir-se (já!) um tanto incapaz diante daquilo que lhe era solicitado.
        R. como toda menina de sua idade adora recortar, colar, e fazer coisas "fofas" de preferência com a cor rosa. E assim foi: algumas sessões foram  para planejar: o que colar, o que cortar, qual será o produto final? Depois de decidido esses detalhes, passamos a execução: como fazer cada uma das coisas que foram pensadas?
          Ao final de sua produção (um céu a noite) ficou muito orgulhosa, a ponto de planejar (agora sozinha) fazer o dia também. Só havia um problema- posto por mim logicamente: todo mundo que via sua produção perguntava o que era e quem fez. Diante da colocação, respondeu R: "Vamos escrever então! Assim você não precisa ficar repetindo, repetindo, toda vez que alguém pergunta".
     A necessidade se fez. O desejo se impôs. Uma barreira caiu!

Espero que meus colegas tenham reconhecido aqui: Jorge Visca, Pichón Rivier, Sigmund Freud, Emília Ferreiro em minhas interpretações.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Aprender o que?

    Entendo que aprender é um movimento constante, contínuo, sem fim, interminável que acontece em todos os lugares com todas as pessoas. Aprendemos quando vamos ao supermercado, quando nos casamos, temos filhos, lemos uma revista, conversamos com o vizinho. Mas para que isso aconteça precisamos estar abertos!
    Imaginem vocês se houvesse uma pessoa responsável por nos dizer o que vai bem ou mal em cada uma dessas situações? E ainda mais, que cada erro fosse mais valorizado que o acerto?
   O caminho supostamente errado nos corredores do supermercado, o olhar recriminador para o marido no jantar de família, as páginas puladas da revista, a indelicadeza com o vizinho, tudo apontado numa caderneta, transformado em notas abaixo do esperado.
    Como estar aberto diante de tantas censuras? 
  A maioria das crianças e jovens que chegam a Clínica Psicopedagógica marcados por essas recriminações,  acreditando que não são capazes de seguir em frente em suas aprendizagens. Nesse momento cabe ao Psicopedagogo, mais do que diagnosticar/classificar a dificuldade de aprendizagem, resgatar o sujeito aprendente.

   Julia (nome fictício) é mais uma dessas crianças que "não consegue, não sabe, não aprende". Nega-se a ouvir uma orientação, obviamente porque a maioria que ouviu até então estão relacionadas a sua não aprendizagem. Neste momento me pergunto "o que ela sabe fazer? o que ela gosta de fazer? pelo que se interessa?"... Tintas! Paisagens! E a partir das tintas abre-se para a discussão de cores a serem utilizadas numa tela, para técnicas de pintura que ainda não conhece, para a voz do outro que a orienta para aprender uma coisa nova a partir de seu centro de interesse.

   Produção de Julia,  11 anos.
        
     Interessante  que após algumas sessões a escola e a família a percebe mais ouvinte das orientações para fazer uma tarefa ou estudar.

Talvez aí reside o ponto no qual a clínica deve movimentar-se- OUVIR!

Claro que aprendi isso com outro (s)....  


domingo, 22 de julho de 2012

DEMANDA- Você tem fome de quê?

                                Dois meses se passaram sem nenhuma postagem.... O que aconteceu? Simples, muito trabalho: Demanda! E que demanda!!! Fome de que? Demanda de que? 
                           As escolas encaminham pacientes e seus familiares que buscam na clínica Psicopedagógica uma tábua de salvação. Pouco imaginam eles o processo pelo qual é necessário passar para obter um fragmento da possível resposta (que na minha humilde opinião nem é possível responder) para os problemas enfrentados.
                   A fome das famílias é tanta que muitos acreditam que em uma sessão ou entrevista preliminar iremos dar essa suposta solução. Mas, um longo e árduo processo se inicia, dolorido até.
                    Serão de 6 a 8 sessões com a criança/adolescente, 2 reuniões com pais ou responsáveis, uma visita a escola e no final um laudo por escrito sobre as impressões. No mínimo 2 meses de processo. E ainda há continuidade do mesmo na maioria dos casos. Ou ainda encaminhamentos para outros profissionais.
               A fome parece que vai diminuindo.... Muitas famílias não creem que a persistência trará resultados. Outras famílias simplesmente preferem deixar desse jeito, já que o outro é mais delicado, complicado e requer mudanças. Fome? Que fome? A demanda passou para muitos. Para outros o desejo de permanecer aconteceu e o trabalho realmente começa agora. E a fome desses será entendida, por eles mesmos.  

quinta-feira, 10 de maio de 2012

O Letramento Infantil


Este texto foi escrito em parceria com uma amiga e colega, Andrea, em prol de uma alfabetização de qualidade.

Pré-Escola Ursinho Pimpão
Aqui se Aprende Brincando!!!
www.ursinhopimpao.com.br
Desde 1986


O Letramento Infantil


A Educação Infantil constitui-se como uma ambiente em que as crianças estão constantemente sendo estimuladas a entrar em contato com as mais diversas áreas do conhecimento, dentre elas a Linguagem Oral e Escrita.
Gradativamente, ao longo da Educação Infantil, a criança vai se apropriando do código escrito e realizando suas próprias tentativas de leitura e produção escrita, as quais são carregadas de significado e ricas em hipóteses, uma vez que começa a pensar sobre a escrita, a se questionar para que as letras servem e como usá-las.
Para que este processo de aprendizagem ocorra de forma agradável, cabe à escola e família criar um ambiente estimulador, em que a criança possa entrar em contato com o mundo letrado nas mais variadas situações como: escrita coletiva, nomeação dos objetos, leitura de histórias, etc.
Toda esta estimulação deve ser feita através do uso da letra de imprensa maiúscula, a qual é de fácil reconhecimento e de fácil produção por parte da criança que não precisa  dominar uma série de movimentos elaborados da letra manuscrita, que nesse momento só vem a prejudicar o processo de alfabetização Além do mais a letra manuscrita maiúscula é mais socialmente utilizada.
Sendo assim, durante todo o período da Educação Infantil, nem a escola e nem a família deve cobrar da criança que ela conheça e se aproprie do traçado da letra manuscrita, já que a mesma possui uma grafia diferenciada que exige muito mais do aluno no que se refere a coordenação motora fina. Também é importante ressaltar, quando a criança visualiza palavras registradas com a letra de imprensa maiúscula, ela tem plena percepção visual do início e do fim de cada letra, o que não ocorre com a letra manuscrita, já que as  mesmas estão todas unidas, e desta forma o aluno não tem visualização o início e final do traçado da cada uma delas.
No processo de apropriação da leitura e escrita, a criança deve ter sua atenção voltada a um único desafio, que é o de identificar e compreender gráfica e foneticamente qual é a letra correta que deve ser utilizada em sua escrita. Fazer com que a criança escreva em letra manuscrita, nesta etapa do desenvolvimento, é sobrecarregá-la, além do desafio de decodificar o código escrito (sons, símbolos e junções), ela ainda possuirá o desafio motor em escrever a letras que possuem em traçado mais complicado, sendo este um inibidor nos avanços e aprendizagens. Segundo Ferreiro, (apud nova escola, 1996, p. 11) começar a alfabetização com letra bastão é uma tentativa de respeitar a seqüência do desenvolvimento visual e motor da criança.
Nos anos iniciais do Ensino Fundamental, ainda ocorrerá o trabalho com a letra de imprensa maiúscula, sendo que gradativamente a escola vai oportunizando aos educandos o contato com a letra manuscrita, mas nesta etapa do desenvolvimento infantil, a criança já está bem mais segura em sua aprendizagem, ou seja, tendo maior domínio do código letrado. Desta forma, o traçar a letra manuscrita será um desafio meramente motor, o que lhe dará maior confiança. Corriqueiramente nos antecipamos e apresentamos a letra manuscrita antes do tempo ideal e muitas vezes as crianças acabam por interromper momentaneamente o processo de aprendizagem da leitura e da escrita para ocupar-se com algo menor, que é o traçado da letra, nesta situação temos uma perda significativa no aprendizado, já que a criança cessa suas hipóteses e canaliza suas energias no traçado da letra.
Vale ressaltar, que em muitas instituições de ensino ocorre a exigência que a letra manuscrita deve ser escrita da forma correta, e antecipar esta aprendizagem faz com que a criança  escreva de maneira alfabeticamente (conjunto de sons associado a símbolos adequados- letras ) incorreta, o que comprometerá o ritmo e a qualidade de sua produção. Mas se a criança percorrer todas as fases da aquisição da leitura e da escrita, no Ensino Fundamental terá maior capacidade e domínio da forma correta de se escrever a letra manuscrita, o que conseqüentemente não acarretará em vícios que a prejudicarão futuramente.
Andrea Mara Bella Cruz -Pedagoga
Raquel Romano- Psicopedagoga 

terça-feira, 17 de abril de 2012

Laudo Psicopedagógico

                     Muitos estudantes perguntam e colegas debatem sobre o laudo Psicopedagógico. Em minha experiência aprendi que alguns aspectos são importantes, outros são específicos do caso. Veja um laudo escrito por mim em 2010.
                  Costumo me referir ao laudo como uma "fotografia" do momento pelo qual o sujeito aprendente está passando.
Informe Psicopedagógico


I) Dados de identificação

Nome:V.
Idade: 12 anos e 6 meses
Sexo: Feminino
Escolaridade: 4ª série do Ensino Fundamental de 8 anos
Data da avaliação: ----/11/2009 a ----/01/2010
           
 II) Motivo da Procura
            A mãe da adolescente V. procurou a AvaliaçãoPsicopedagógica devido a percepção de algumas dificuldades encontradas pela mesma durante sua escolaridade, pricipalmente no que diz respeito a falta de atenção e interesse pelos estudos. V. demonstra ainda, de acordo com a mãe, uma lentidão para aprender.

Técnicas e estratégias utilizadas:

·         Entrevista Operativa Centrada na Aprendizagem,
·         Provas Pedagógicas,
·         Provas Piagetianas,
·         Provas Projetivas Psicopedagógicas,
·         Atividades lúdicas,
·         Análise do Material Escolar,
·         Anamnese.

III) Imagem do sujeito

            A dificuldade de V. foi percebida no início de sua alfabetização. No seu primeiro ano escolar formal já foi pontuado à família a suposta dificuldade e desde então vem sendo investigada pela mesma em diferentes especialistas.  Num primeiro momento, essa dificuldade era mais pontual no processo de aprendizagem da leitura e da escrita e poderá estar associado a essa dificuldade inicial o fato da cliente começar a falar aos 3 anos e meio e somente após entrar na escola de Educação Infantil. Atualmente a dificuldade relatada pela mãe é mais global, atingindo diferentes áreas do conhecimento.
V. fez outras diferentes avaliações entre 2006 e 2008. Incluindo: neuropsicológica, neuropediatrica, oftalmológica, psicológica e psicopedagógica, nesta ordem. Iniciou intervenção com o método PEI em meados de 2007.
            Neste processo de avaliação chegou ao consultório muito solicita e colaborou, fazendo prontamente o que lhe era pedido. Apesar de muitas vezes precisar de um estímulo para começar e/ou terminar as atividades propostas, perdendo facilmente a atenção, não depositando assim toda a energia necessária para produzir adequadamente.
Na maioria das propostas demorou para começar, tendo como consequência uma demora maior do que a esperada para terminar. Dispersou-se com facilidade e sua atenção concentrada não foi o suficiente para uma produção de qualidade.  Muitas vezes precisou de intervenção e respondeu muito bem diante de estímulos positivos.
            Afetivamente mostra um bom vínculo com a aprendizagem assistemática, interessa-se por aprender coisas diferentes, utiliza da criatividade e de iniciativa para resolver problemas cotidianos. Sente prazer em produzir e orgulha-se de suas produções. Mas esses sentimentos positivos são observados em situações onde os objetos de conhecimento não estão organizados de uma forma acadêmica.
            Os vínculos demonstrados com a aprendizagem sistemática (escolar) são negativos,  deposita no outro (professor) o conhecimento e a capacidade de aprender, afastando de si o saber. Sente-se inferiorizada, inapta para produzir de acordo com aquilo que lhe é requerido na escola.
            As provas piagetianas tem como objetivo indicar  o grau de aquisição de algumas noções importantes para o desenvolvimento cognitivo, determinando o nível de pensamento alcançado e ainda o nível de estrutura com que opera. Vitória deveria estar no último nível de desenvolvimento cognitivo, ou seja, no pensamento formal hipotético-dedudivo. Essa última etapa inicia-se na adolescência e é um alçar vôo ao pensamento, onde deveria ser capaz de resolver problemas através de diferentes situações, levantando hipóteses e formulando um pensamento na qual se expõe o que se pretende provar, estabelecer além de discutir com precisão, objetividade, sistematização, organização e flexibilidade de pensamento. Mas Vitória se encontra na fase anterior, a operatória concreta com resquícios da fase pré-operatória. 
            A fase operatória concreta tem como característica a capacidade de solucionar um problema proposto através da ação mental e a fase pré-operatória a resolução de problemas se dá através da ação física. V., em alguns momento, utiliza a operação mental e em outros precisa do material concreto para resolver os vários problemas propostos.
Diferentes provas foram aplicadas em V., começando com as apropriadas para a faixa etária cronológica, as quais não se saiu bem. Retomando cada uma das dimensões cognitivas (conservação, classificação e seriação) pode-se notar que em diferentes situações ela consegue ter sucesso quando incentivada através de estímulos positivos e mediações como a repetição da pergunta e indicativos de caminhos mentais para operar.
Os conteúdos escolares investigados foram lógica, cálculo mental, sistema de numeração decimal, algoritmo das operações, resolução de problemas, produção escrita e leitura e interpretação.  Um indicativo que se repete em todos os conteúdos é o tempo utilizado pela Vitória para começar a tarefa e terminá-la além da necessidade de constante intervenção para que consiga executar as atividades propostas.
Em diferentes situações ela se mostrou desmotivada, dispersava-se com facilidade e precisava de orientação diretiva do que e como fazer.
Em lógica teve a necessidade de repetir várias vezes o mesmo movimento do jogo para compreender e ao perder desistiu de tentar. Lê e escreve corretamente números com cinco algarismos sendo as três primeiras casas (dezena de milhar, unidade de milhar e centena) ocupadas por números maiores que 0, já em números  com as casas das dezenas e centenas ocupadas por zero não acertou. Possui poucos esquemas para calcular mentalmente, o que dificulta na execução dos algoritmos matemáticos básicos (adição, subtração, multiplicação e divisão), disse não saber resolver divisões com dois algarismos no divisor. Quando questionada como resolveu cada uma das propostas descreveu suas ações, após questionada sobre cada movimento, antes disso relatou não saber explicar o que fez.
Em linguagem, leu um texto que trouxe sobre um filme e um jogo de computador. Mesmo tendo lido mais de uma vez, ao questionada equivocou-se com os dados do texto (que era informativo). Já com o texto narrativo conseguiu estabelecer relações, compreender o sentido global do mesmo, entender a seqüência temporal linear, separar fatos principais e secundários porém não estabeleceu relação de casualidade entre os fatos. Todas as questões foram colocadas para ela de forma oral.
Sua leitura oral é pontuada corretamente, com entonação adequada, com algumas omissões de pontuação o que acarreta junção de frases. Sem deslocamento de letras, sílabas, palavras ou frases.
Quando solicitada para produzir um texto escrito, demora consideravelmente para iniciá-lo, apaga-o e ao final produz somente um parágrafo, com erros ortográficos, gramaticais e de coerência anteriores a sua escolaridade. Ao ser comparado com suas produções da escola pode-se notar que as da última são melhor elaboradas.
V. apresenta características de déficit de atenção interdependente de questões afetivas e cognitivas. Ninguém pode aprender mais do que sua estrutura cognoscente permite, tampouco consegue avançar em suas aprendizagens com os vínculos afetivos inadequados.
             
IV) Indicações:
- Atendimento Psicológico familiar,
- Atendimento Psicopedagógico,
- Avaliação neurológica.

V) Prognóstico:
            Sabemos que entre as indicações ideais e as possibilidades reais há uma diferença. Diferença esta que deve ser levada em conta em respeito a família envolvida. Todas as indicações são importantes porém  a família deverá ter persistência a partir da escolha feita, poupando V. de mais avaliações desnecessárias e oferecendo a ela o melhor suporte possível.


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Raquel Romano de Lima
Pedagoga/Psicopedagoga

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Televisão- distante visão do que?

                                 Televisão, para minha surpresa, significa tele (distante) e vision (visão). A televisão é uma distante visão que se tem das coisas postas ali. Se está distante, pode diferir consideravelmente do que é de fato e causar uma distorção da realidade transmitida. A partir dai podemos abrir uma reflexão sobre essa influência (de visão distante) na vida do sujeito aprendente.

J. tem 7 anos e um iphone. Não sabe ler e escrever muito bem, mas baixa aplicativos como ninguém.
B. tem 10 anos e a coleção completa das bonecas vampiras. Seu relacionamento na escola não é muito bom, mas sua persuasão com os adultos é bem interessante.
F. tem 12 anos. Acabou de ganhar um laptop, melhor que esse que eu uso, de acordo com ele. Sua capacidade lógica deixa a desejar, mas já publicou seu perfil em todas as redes sociais.


Podemos concluir, então, que a televisão destrói a linha divisória entre infância e idade adulta  de três maneiras, todas relacionadas com sua acessibilidade indiferenciada; primeiro, porque não requer treinamento para apreender sua forma; segundo porque não faz exigências complexas nem a mente nem ao comportamento; e terceiro porque não segrega seu público.  
Neil Postman. O desaparecimento da infância. p. 94

                            

quinta-feira, 29 de março de 2012

Psicopedagogia e Psicanálise- Encontros possíveis e influências (in) diretas.

      

               Estava eu a pensar, pra variar.... A Psicopedagogia é algo que diz do diagnóstico, do laudo, da certeza de alguma coisa achar na investigação dos processos de aprendizagem do sujeito. Até aí, tudo bem. Mas tem um resto, nem sempre o que encontramos é o que deseja ser encontrado. Nem sempre o diagnóstico é possível e para mim é sempre questionável, pelo simples fato que, todos os meus pacientes que entraram em trabalho, após o diagnóstico, muitas outras coisa mais importante se postaram, acima e além do diagnóstico. Já a Psicanálise, põe dúvida, ouve onde não é dito (atos falhos, chistes...), vê cada sujeito como único, sem pressupor nada a seu respeito, muito menos o enquadramento dentro dessa ou daquela patologia da aprendizagem. E para culminar, meus pensamento se deparam com os do Leandro de Lajonquière em Infância e Infanticidio:

 O falar de das necessidades e interesses da criança é uma falaespecialista. Os especialistas crêem saber, graças a elucubrações científicas de ocasião, sobre as necessidades e interesses “da criança” ou de uma criança genérica. Em nome desse saber genérico, falam da criança a outros, ao Outro. Quando dirigem a palavra a uma criança, o fazem inevitavelmente em nome desse saber sem nome próprio. Portanto, não falam com uma criança. Este outro falar está em função do reconhecimento, por parte do velho, da própria implicação subjetiva em uma educação, quer dizer, de como é perlaborado aquele estrangeiro ao “si mesmo adulto”que o des/encontro com o pequeno ser realimenta.

                   Aqui Leandro nos chama a atenção sobre uma postura muito comum entre nós educadores: o de tratar a criança como estrangeira, aquela que pouco ou nada sabe desse mundo. Nós, especialistas, corremos o risco de falar  da criança e não para a criança.
                  Penso então aqui  na diferença entre Psicopedagogia e Psicanálise. A Psicopedagogia,  na sua maioria das vezes fala da criança- isso ocorre quando escrevemos um laudo, "encaixamos" a criança nesta ou naquela listagem de sintomas da aprendizagem a fim de ter uma ideia "sobre" ela e não com ela. Criamos sistemas de intervenção e juramos que é único, para aquela criança, mas na verdade é um apanhado de fazeres já feitos, que visam abrandar o sintoma. Faço essa crítica a mim mesma, que muitas vezes sou pega por essa armadilha pedagógica.
                Já na Psicanálise, tiramos nossas gravatas, como diria Lacan, e buscamos falar com a criança. E junto com ela, investigamos seus fantasmas, procuramos entender a formação de sua estrutura e propiciamos uma escuta atenta a tudo que ela trás. Independente de seu diagnóstico Psicopedagógico. 
              Dá certo? Ah, dá!! Cada dia que passa vejo que, com embasamento, discussões em pares, leituras e busca constante, dá certo!